Investir em um projeto complexo sem validar o caminho certo é um risco caro – de tempo, de orçamento e, às vezes, da credibilidade de quem bancou a decisão. É esse o problema que o MVP (Minimum Viable Product, "produto mínimo viável") resolve: a entrega de um produto que atenda minimamente às necessidades para as quais está sendo criado, permitindo compreender se uma solução está no caminho certo – ou precisa de ajustes – antes de investir em complexidade. Aplicar MVP em projetos de tecnologia é hoje um dos caminhos mais eficazes para reduzir esse risco.
Os conceitos apresentados por Jeff Sutherland e Dan Olsen em seus livros mostram como duas das principais metodologias ágeis enxergam o MVP e por que ele é tão relevante em projetos de tecnologia. A seguir, exploramos essas perspectivas e mostramos como aplicamos esse conceito em contextos reais: um banco de dados cultural com mais de 200 mil verbetes, um projeto do Banco Mundial em Moçambique e uma plataforma educacional para crianças em situação de vulnerabilidade.
Navegue pelo conteúdo:
- MVP e Scrum
- MVP e Lean
- 3 exemplos de MVPs criados na Caiena
- O que considerar antes de criar um MVP
- Passo a passo para criar um MVP
- A tecnologia por trás de um MVP rápido
O Scrum é uma das metodologias ágeis que usamos aqui na Caiena. Seu criador, Jeff Sutherland, explica o que é MVP e como colocá-lo em prática no framework de trabalho do livro "Scrum: A Arte de Fazer o Dobro do Trabalho na Metade do Tempo". Inclusive, a obra é tão importante na Caiena que ela faz parte do nosso kit de boas-vindas.
Segundo Sutherland, na criação de produtos, o ideal é realizar uma entrega de algo concreto o mais rápido possível para seus futuros usuários. Ele sugere que isso deve ser feito antes mesmo de finalizar 20% das funcionalidades para que, assim, o produto já possa ser minimamente testado por quem o utilizará – o importante é que a funcionalidade central, a mais indispensável, já esteja disponível. Outro ponto importante na entrega de um MVP é que ele deve funcionar "de verdade".
"Uma câmera que tira fotos, mas não acerta o foco. É uma mobília da sala de jantar com apenas duas cadeiras. É a distribuição de uma vacina para cinco das 100 cidades que precisam de ajuda."
Jeff Sutherland, em "Scrum: A Arte de Fazer o Dobro do Trabalho na Metade do Tempo"
Assim, um MVP possibilita que os erros sejam cometidos com o mínimo de danos possíveis. E quando o lançamento oficial do produto acontecer, ele já terá sido ajustado para atender o que as pessoas valorizam de fato.
Na visão do Scrum, um MVP é um processo incremental que ajuda a desenvolver primeiro as características que os clientes valorizam e a lançar a versão mínima do produto com 20% do trabalho feito.
Para Sutherland, esse é um processo cíclico: logo, após receber o feedback dos usuários do produto mínimo viável, é possível desenvolver mais MVPs que reflitam outros 20% do trabalho. De acordo com o autor, esse processo de lançamentos incrementais permite lançar 200% do valor do produto na metade do tempo.
Para analisar o MVP pela ótica da metodologia ágil Lean vamos usar como referência os ensinamentos do autor Dan Olsen no livro "The Lean Product Playbook: How to Innovate with Minimum Viable Products and Rapid Customer".
Este guia prático aborda a criação de produtos com base na metodologia Lean, cujos princípios surgiram na indústria automotiva japonesa no pós-Segunda Guerra Mundial para eliminar desperdícios, melhorar a entrega e fortalecer o relacionamento entre as pessoas envolvidas nos projetos.
Para Dan Olsen, um MVP traz mais clareza e foco aos projetos e, principalmente, reduz o desperdício de recursos – algo central nessa metodologia. Assim, pela ótica do Lean, o produto mínimo viável reduz riscos e incertezas associados a novos produtos, acelerando os processos de descoberta na criação do produto.
Vale notar que Scrum e Lean reconhecem a importância do MVP, mas se diferenciam na abordagem: para o Scrum, o produto mínimo viável é orientado pelas entregas incrementais; no Lean, o foco está na validação com os usuários e na rápida adaptação estratégica.
Para tirar a teoria do papel, separamos três dos diversos MVPs que desenvolvemos na Caiena – eles mostram como a aplicação prática desse conceito contribui para superar desafios em negócios, no terceiro setor e na gestão pública.
1. Enciclopédia Itaú Cultural
A Enciclopédia Itaú Cultural é o mais antigo projeto da organização Itaú Cultural. A iniciativa equivale a um banco de dados bastante completo sobre arte e cultura brasileira, cujo catálogo vem sendo atualizado desde 1987, ano de seu lançamento.
Hoje, a Enciclopédia Itaú Cultural é uma referência digital em reunir informações sobre o que é produzido nas artes visuais, literatura, teatro, cinema, dança e música no Brasil, com mais de 200 mil verbetes catalogados e em constante atualização.
A Caiena desenvolveu um MVP para a Enciclopédia Itaú Cultural com foco na reestruturação de navegação e sistema de busca do portal já existente, além de um plano para atingir esse objetivo. O produto mínimo viável evoluiu, e a Caiena desenvolveu a partir dessa experiência uma arquitetura personalizável que dá às pessoas responsáveis pela plataforma autonomia para gerir publicações – reduzindo a dependência técnica e facilitando a atualização do acervo.
2. SEED Moçambique
Realizamos um MVP para o Banco Mundial em parceria com a delegação da União Europeia em Moçambique, no âmbito do programa Sustainable Business for Africa. O projeto resultou na criação de estratégias para melhorar e expandir o processo de abertura de empresas pela plataforma e-BAU, em Moçambique.
O MVP contou com um mapeamento profundo do processo de abertura de empresas no país – um desafio de 12 etapas interdependentes, divididas entre sete entidades governamentais. Para entender a complexidade desse cenário e criar uma solução assertiva, a equipe da Caiena realizou entrevistas com pessoas envolvidas nas aberturas de empresas de Moçambique, captando informações por meio de técnicas de design thinking e design participativo.
Também foram aplicadas pesquisas primárias e secundárias, oficinas e pesquisa do usuário. Em seguida, com métodos de UX, os conceitos foram validados, norteando a jornada de usuários, wireframes, fluxos do sistema, protótipos e o design review para superar esse desafio em Moçambique.
3. Dê Asas
Como engajar estudantes, crianças e jovens que vivem em casas lares a se empenharem no processo de aprendizagem virtual? Esse era um dos desafios do Dê Asas – Educação e Dever de Casa, programa da Aldeias Infantis SOS Brasil, líder mundial em cuidado infantil.
A plataforma Dê Asas possibilita a orientação pedagógica em casa, para que crianças, adolescentes e jovens atendidos realizem atividades complementares ao ensino tradicional no contraturno escolar.
Para superar os desafios do ensino junto à Aldeias Infantis SOS Brasil, a Caiena mapeou as principais demandas relacionadas à usabilidade do público usuário da plataforma – informações fundamentais para a elaboração do MVP. No processo, identificamos que práticas de gamificação e storytelling seriam recursos com forte apelo para os estudantes, apoiando os objetivos de desenvolver competências, autonomia na aprendizagem, autoria e protagonismo.
Após o MVP, desenvolvemos também a Plataforma Dê Asas completa, com trilhas de aprendizagem envolventes, jogos, desafios, uso de diferentes mídias e recursos visuais lúdicos – do character design às ilustrações – criados pela equipe de Design Gráfico da Caiena.
Tirar um projeto do papel e colocá-lo em prática não costuma ser uma tarefa fácil. Isso exige muita atenção em etapas que antecedem a criação de um produto mínimo viável. Primeiramente, é importante identificar o problema que esse MVP pode resolver. Você sabe quais as dificuldades que esse mínimo produto viável precisa suprir, de acordo com o seu contexto?
A resposta está na forma como você compreenderá cenários e se aprofundará nos desafios. Uma maneira de organizar essas informações é por meio da matriz CSD, framework muito usado para iniciar projetos de tecnologia e design. CSD é a sigla para Certezas, Suposições e Dúvidas – ela organiza o que se sabe, o que se supõe e o que ainda precisa ser investigado, acelerando os processos de descoberta na criação do produto.
Outra forma de descobrir respostas para problemas complexos é por meio das práticas de design research, ou "pesquisa em design". Este conceito define o estudo de comportamentos, hábitos e motivações de quem usará o MVP.
Por meio do design research, é possível compreender melhor o público por meio da captação de dados qualitativos ou quantitativos. Esses dados são então unificados e analisados, enriquecendo a visão sobre a realidade do público do mínimo produto viável.
Se você já sabe aonde quer chegar com seu mínimo produto viável, então é o momento de começar a sua criação. Siga as orientações abaixo para alcançar um MVP que atenda às expectativas iniciais do seu projeto.
- Defina seus objetivos: com o máximo de informações em mãos, defina o que você deseja conquistar com este mínimo produto viável;
- Organize as prioridades: com as prioridades listadas, defina o que é essencial para que esta versão do MVP atenda às necessidades mínimas do público usuário. Para isso, você pode criar um roadmap – um planejamento que possibilita visualizar as direções gerais para alcançar seus objetivos;
- Aprofunde-se em seu público: pesquisar sobre o público é fundamental para o sucesso do mínimo produto viável. Você pode utilizar ferramentas do design thinking que colocam as pessoas no centro dos processos – um valor bastante importante nos projetos da Caiena.
- Aplique métodos de design: depois de entender melhor quem são as pessoas que utilizarão seu mínimo produto viável, crie estratégias que coloquem o usuário no centro do processo. Garanta que seu público participe ativamente nas decisões e escolhas do MVP. Um exemplo de como isso funciona na prática: as oficinas de design thinking realizadas durante a criação do Observatório de Gestão Pública de Boa Vista.
- Incentive os feedbacks: o último passo é a troca de ideias e cocriação entre idealizadores do MVP e o público para quem ele está sendo criado. Esses feedbacks são fundamentais para ajustar o produto e atender melhor às expectativas.
A escolha da tecnologia também influencia diretamente a velocidade de entrega de um MVP. Aqui na Caiena, uma das nossas principais linguagens de programação é o Ruby, com o framework Rails. Ruby on Rails facilita o desenvolvimento e tem uma curva de aprendizagem rápida – características que fazem dele uma boa escolha para um MVP, já que o tempo de produção costuma ser curto e a prioridade é validar o essencial antes de investir em complexidade.
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